
Tem uma cena que se repete hoje em quase toda cidade do Brasil. Uma academia abre as portas em uma galeria, num strip mall ou ao lado de um supermercado, e em poucas semanas o comércio ao redor começa a se mexer. A lanchonete pensa no cardápio fit, a loja de roupas troca a vitrine, a franquia de suplementos aparece, a floricultura e a cafeteria ganham um movimento novo. O que antes era só "mais uma loja" virou o coração de um pequeno ecossistema. A academia deixou de ser apenas um lugar para treinar e passou a ser âncora.
Essa transformação apareceu com muita clareza na conversa que o Francisco Zancan, CEO da Space Hunters, teve no Property Cast, o podcast da Carrefour Property gravado na ABF Franchising Expo 2026, ao lado da Academia Gaviões e do time do Carrefour Property. Foi um bate-papo sobre o mercado fitness, mas que, no fundo, falou o tempo todo sobre território, sobre varejo e sobre como quem trabalha com expansão de franquias precisa olhar para o ponto comercial daqui para frente. Você pode assistir ao episódio completo aqui, e neste artigo a gente aprofunda o que ele revela.
A ABF Expo 2026 e o pano de fundo: um setor no melhor momento da história
Para entender por que essa conversa importa, vale olhar o cenário. A ABF Franchising Expo 2026, em sua 33ª edição, foi mais uma vez a maior feira de franquias do mundo, reunindo centenas de marcas nacionais e internacionais no Expo Center Norte, em São Paulo. E ela aconteceu num momento inédito: o franchising brasileiro faturou R$ 301,7 bilhões em 2025, um crescimento de 10,5% sobre o ano anterior, segundo a Pesquisa de Desempenho do Franchising, da ABF. O setor já responde por mais de 2% do PIB, com mais de 3,2 mil redes e mais de 200 mil unidades em operação.
Mas o número que mais interessa para quem pensa em expansão de rede não é o faturamento. É a direção do crescimento: a interiorização. As marcas estão avançando para cidades médias e pequenas, ganhando capilaridade em praças que, até pouco tempo atrás, eram atendidas só por comércio local. E isso torna a pergunta "onde abrir a próxima unidade?" muito mais difícil, porque não dá para replicar num município de 40 mil habitantes a mesma lógica de fluxo e consumo de um bairro nobre de São Paulo.
Foi sobre esse fio que a conversa da Gaviões com o Carrefour Property caminhou. Como já escrevemos no artigo sobre por que o ponto comercial decide mais do que o investimento inicial, a tabela de investimento diz quanto você vai desembolsar, mas quase nada sobre quanto você vai faturar. O que separa a franquia que prospera da que fecha em dois anos é a leitura do território. E o fitness, hoje, é um dos melhores exemplos disso.
O fitness deixou de ser onda e virou hábito de bairro
A primeira coisa que ficou evidente é que o fitness não é uma onda passageira. É um comportamento que veio para ficar. A pandemia acelerou isso de um jeito que ninguém previa: quem estava fisicamente mais preparado passou por aquele período com mais segurança, e no retorno muita gente procurou a academia por recomendação médica e por uma decisão consciente de mudar o estilo de vida.
Junto com a saúde, veio outra transformação. As pessoas passaram a querer resolver a vida perto de casa ou perto do trabalho. O supermercado, a farmácia, a academia, o presente na galeria, o almoço, tudo no mesmo raio. Esse senso de comunidade, que já era forte em outros países, ganhou força no Brasil depois da pandemia. Roger Teixeira, gerente comercial e de marketing do Carrefour Property, resumiu bem esse movimento na conversa:
"Esse senso de comunidade cresceu pós-pandemia, das pessoas fazerem as coisas no próprio bairro, perto de onde moram ou trabalham. É o que tem feito a gente repensar muito o nosso mix nas galerias."
Roger Teixeira, gerente comercial e de marketing do Carrefour Property
E a academia, por ser um destino frequente, quase diário para muita gente, se tornou um dos grandes ímãs desse movimento. Ela organiza fluxo, cria rotina e traz um público que, uma vez fidelizado, volta várias vezes por semana. É aí que entra o conceito de âncora. Entender esse papel é o primeiro passo para ler as tendências de consumo e potenciais territoriais de qualquer região com um novo olhar com futuro.
O que "âncora" significa na prática: a academia movimenta tudo ao redor
Na prática, uma âncora é o negócio que puxa fluxo e faz o comércio vizinho girar. E foi exatamente isso que apareceu nos exemplos da conversa. Quando uma academia se instala perto de um comércio já existente, esse comércio rapidamente vem conversar, quer entender o que pode agregar, o que pode oferecer para aquele novo público que passou a circular ali todos os dias.
O caso mais ilustrativo foi o de uma galeria em Brasília. Havia uma praça de alimentação grande e subutilizada. Uma academia entrou naquele espaço e, a partir dali, a galeria inteira se movimentou: apareceu logista vendendo roupa voltada para o público fitness, loja de produtos naturais, um mix novo que antes não fazia sentido e passou a fazer. O espaço foi ressignificado. Como resumiu Roger:
"Entrou uma academia nesse espaço e, a partir disso, a galeria toda se movimentou. Loja de roupa voltada para esse público, loja de produtos naturais. A gente tem visto isso acontecer em todos os nossos negócios."
Roger Teixeira, Carrefour Property
Existe um encaixe que potencializa esse efeito, que é colocar a academia ao lado de um supermercado ou de um hipermercado. A lógica é simples e muito humana. A pessoa já vai ao mercado toda semana. Se a academia está ali, a desculpa para não treinar diminui, porque ela já está no local. Some a isso o estacionamento, que costuma ser um gargalo em cidade grande e que nesses espaços comporta os dois públicos ao mesmo tempo. O resultado é conveniência de verdade, o tal do útil e agradável no mesmo endereço.
E tem um detalhe que reforça tudo isso: boa parte do público de uma academia como a Gaviões é formada por famílias. Aline Maciel, gestora de expansão e multifranqueada da rede, fez questão de destacar isso:
"Apesar de a Gaviões ser uma marca muito forte no conceito do bodybuilder, o nosso maior público, 90%, são as famílias. São os pais que vão treinar junto com a esposa e os filhos."
Aline Maciel, gestora de expansão e multifranqueada da Academia Gaviões
Uma marca que atrai família combina naturalmente com um ambiente que também é feito para família. Para quem opera um ponto comercial, isso muda o jogo. Um PDV que recebe uma academia como vizinha não ganha só o fluxo da própria academia. Ganha um público diferente, com frequência alta, que consome antes ou depois do treino. É esse encadeamento que transforma um endereço qualquer em um centro de conveniência. E é justamente esse encadeamento que precisa ser lido com método, porque nem todo espaço reage do mesmo jeito. A resposta está na morfologia urbana do entorno, no tecido de ruas, fluxos e usos que cerca aquele endereço.
A experiência é o que transforma a academia em destino
Vale entender por que a academia consegue exercer esse papel de âncora com tanta força. A resposta está na experiência. A academia de hoje não é a de dez anos atrás. Ela ficou mais acolhedora, mais democrática, mais convidativa. Antes, era um ambiente meio hostil para quem não fazia parte daquele universo mais musculoso. Hoje, todo mundo se sente à vontade, e estar dentro de um ambiente de varejo, onde as pessoas já circulam naturalmente, deixou o acesso ainda mais fácil.
Junto disso, a oferta se diversificou. Não é mais só a sala de musculação. Tem estúdio de pilates, sala de bike, aulas para os filhos, centro de treinamento com maquinário pesado para quem quer intensidade, e as aulas coletivas, os aulões, que criam uma energia própria. É esse leque que amplia o público e cria comunidade. E comunidade, no fim das contas, é o que faz as pessoas voltarem. Como resumiu Francisco Zancan:
"Hoje a gente tem que pensar na experiência, é o que faz a diferença. Não é mais só comprar o produto ou o serviço, é como a pessoa vai se sentir."
Francisco Zancan, CEO da Space Hunters
Existe até um formato que traduz bem essa busca por praticidade dentro dessa lógica de conveniência: os modelos compactos, tipo circuito, em que se faz um treino completo em torno de trinta e poucos minutos, passando por cada estação, de forma autônoma. É um tipo de operação que aparece com força na feira, como o formato Fast Treino, que roda circuitos de até 36 minutos com um professor por turno, e que já comentamos no artigo sobre modelos enxutos e leitura de território. Ele encaixa muito bem em espaços de fluxo, perto de onde a pessoa já passa no dia a dia. Quanto mais a academia se torna um destino frequente e prático, mais forte fica o seu papel de âncora, e mais ela movimenta o comércio ao redor.
Estados Unidos e Brasil: dois movimentos em direções opostas
Um dos pontos mais interessantes da conversa foi a comparação entre o que acontece nos Estados Unidos e no Brasil. A Gaviões, que já opera fora do país, tem essa leitura de perto. Francisco descreveu o contraste:
"Nos Estados Unidos, a maior parte dos shoppings é baseada em âncoras, e tem um movimento grande de shopping fechando, porque a realidade é diferente."
Francisco Zancan, CEO da Space Hunters
Lá fora, as cidades se espalharam, o consumo se descentralizou e o formato gigante, dependente de âncoras enormes, perdeu força. No Brasil, o movimento é quase o contrário. Nossas cidades também se espalharam e ficaram dependentes do carro, mas a pandemia fez as pessoas repensarem isso. Surgiu um desejo claro de viver perto, de não precisar atravessar a cidade para resolver o básico. E com isso apareceu um ressurgimento dos strip malls e dos centros de comunidade de bairro. Enquanto os Estados Unidos desmontam parte dos seus grandes malls, o Brasil parece estar voltando à origem daquele conceito: criar um polo de comércio e serviços que atende a região, a pé, no dia a dia.
Isso não é um detalhe. É uma tendência urbana de fundo, que redefine onde faz sentido abrir um novo ponto comercial. Ler esse movimento com antecedência, identificar os potenciais territoriais de cada região antes que a concorrência chegue, é o que separa uma expansão bem pensada de uma aposta no escuro.
Por que o ponto certo depende da leitura do território
Aqui está o ponto central. A academia funciona como âncora, mas ela só cumpre esse papel se o território ao redor sustentar essa lógica. Não adianta o formato ser bom se o entorno não tiver o perfil de público, o fluxo, a visibilidade e a estrutura certos. Foi o que apareceu na conversa sobre a Gaviões, que já soma mais de cem unidades implementadas e chega a 117 no total entre as que estão operando e as que já foram vendidas para abrir, com ticket que pode chegar a R$ 2,8 milhões por unidade. Para uma operação que funciona 24 horas, é preciso estar onde há gente que trabalha, gente que circula, uma população com o perfil adequado. Localização, para uma marca assim, é o critério número um.
E "localização" não é um endereço bonito no mapa. É a leitura completa do território. É aqui que entram o geomarketing e a inteligência geográfica. Ler a morfologia urbana significa entender como as ruas se conectam, por onde as pessoas passam, quais são os caminhos obrigatórios, o que já existe no entorno e como esse conjunto conversa com o público que a marca quer atingir.
Um exemplo prático apareceu quando Francisco falou das diferenças regionais. Em regiões frias, a sazonalidade tira gente da academia no inverno, e a saída é escolher um ponto que a pessoa não consiga evitar:
"O segredo, em regiões mais frias, é ficar no caminho obrigatório da pessoa, na ida ou na volta do trabalho. Já numa região mais quente, dá para ficar mais perto do bairro."
Francisco Zancan, CEO da Space Hunters
Ele fez questão de reforçar que essa leitura é fina, feita caso a caso, bem ponto a ponto, região a região. Uma galeria ressignificada em Brasília, um mix que muda de Porto Alegre a Manaus, tudo isso mostra que o mesmo formato precisa de leituras diferentes conforme o lugar. É exatamente esse trabalho que a Space Hunters faz. A partir da leitura de morfologia urbana e de inteligência territorial, cruzamos as tendências de consumo e potenciais territoriais de cada área para identificar onde a lógica de âncora vai, de fato, gerar presença e capilaridade para a rede. Foi essa leitura que levamos, por exemplo, para o estande da Maria Brasileira na ABF, com um totem do Space Data, onde diretores de expansão viam, em segundos, o potencial de cada praça aparecer na tela.
A leitura vem do método, não da estrada
Um ponto importante, e que costuma gerar confusão, é como essa leitura acontece. Não é preciso pegar a estrada para entender o potencial de uma praça. A leitura do território, das tendências urbanas e do comportamento de consumo é construída pela metodologia da Space Hunters e pela nossa base de inteligência territorial, sem depender de uma visita presencial à cidade. Isso dá escala e velocidade a um processo que, feito da forma antiga, levaria semanas para cada cidade analisada.
Na prática, isso significa que uma rede consegue avaliar dezenas de praças diferentes com o mesmo rigor, sem depender de impressões soltas e sem esperar semanas por cada estudo. É o que permite responder, com método e em pouco tempo, uma pergunta que sempre foi difícil: esta cidade, este bairro, este ponto, sustentam o modelo que eu quero abrir? Não é sobre encontrar um espaço vago. É sobre entender qual espaço vai reorganizar o ecossistema ao redor dele e sustentar a operação no longo prazo.
Da leitura à decisão: gestão orientada a dados na expansão de rede
Tem um segundo movimento que caminha junto com o efeito âncora, que é a retenção. E os dois dependem de dados. Na conversa, ficou claro como as academias hoje usam sistemas avançados e inteligência artificial para acompanhar o aluno, entender quando ele faltou e manter as pessoas em atividade. Francisco trouxe um dado que ilustra bem o poder disso:
"Peguei uma academia de um brasileiro em Miami, que tinha três meses de retenção, a média do mercado. Só de criar comunidade, ele quebrou o recorde dos Estados Unidos."
Francisco Zancan, CEO da Space Hunters
A experiência, o pertencimento, o acolhimento, tudo isso é o que faz o cliente voltar. E se, na operação, a retenção é guiada por dados, na expansão a lógica é a mesma. Escolher um novo ponto comercial não pode ser decisão de feeling. Precisa de gestão orientada a dados. É aqui que uma plataforma faz diferença. O Space Data coloca a inteligência territorial na mão do time de expansão: dá para cruzar o histórico de vendas da rede com dados territoriais, comparar regiões, avaliar o potencial de um endereço e enxergar onde a marca ainda tem espaço para crescer com presença e capilaridade.
Essa lógica vale dentro e fora do Brasil. A Gaviões já opera nos Estados Unidos e em Portugal, e cada país pede uma leitura própria. O Space Data Global cobre esse tipo de necessidade em mais de 14 países, o que permite comparar mercados e tomar decisões de expansão de rede com a mesma base, seja aqui, seja lá fora. Foi esse mesmo raciocínio que guiou nossa presença no estande do Mercadão dos Óculos na ABF, onde a máxima era direta: ponto não pode errar. Afinal, quase tudo em um negócio se corrige com o tempo, menos o ponto. Depois que a loja abre, a localização vira a constante ao redor da qual todo o resto precisa girar.
O que muda para quem faz expansão de franquias
Colocando tudo junto, o recado é direto. A academia como âncora é o sintoma de uma transformação maior: o varejo está se reorganizando em torno de destinos que geram comunidade, e o fitness é hoje um dos principais. Isso muda a forma de pensar a expansão de franquias. Não se trata mais de encontrar o espaço mais barato ou o que estava disponível. Trata-se de identificar onde um formato âncora vai reconfigurar o ecossistema ao redor e, com isso, gerar fluxo, presença e capilaridade para toda a rede.
No fim, o que sustenta tudo isso é a relação com o cliente, e Aline resumiu isso de um jeito que vale para qualquer negócio de varejo:
"Relações humanas é o que faz o negócio se manter ativo, é o que faz com que a gente seja rentável. É olhar o detalhe do detalhe e entender que todos são importantes."
Aline Maciel, Academia Gaviões
As marcas que vão sair na frente são as que juntam duas coisas: a inteligência territorial para ler o território com profundidade e a gestão orientada a dados para transformar essa leitura em decisão. É um novo olhar com futuro, que enxerga o ponto comercial não como um imóvel isolado, mas como uma peça dentro de um tecido urbano vivo, que se movimenta a cada nova âncora que chega. Esse é o trabalho que a Space Hunters entrega todos os dias: transformar a leitura de morfologia urbana e as tendências urbanas em decisões concretas de expansão, para franquias e redes que querem crescer no lugar certo, na hora certa.
Comece a ler o seu território com dados
Se a sua rede está pensando em expansão, o primeiro passo é enxergar o território com clareza. Antes de escolher qualquer novo ponto comercial, vale entender onde estão os potenciais territoriais que combinam com a sua marca. É exatamente isso que o Space Data coloca na sua mão: você abre o mapa, digita a praça que tem em mente e enxerga, na hora, o potencial daquele território, com a mesma inteligência geográfica que orienta as decisões das redes mais sofisticadas do mercado.
E se o que a sua rede precisa é de uma leitura estratégica mais profunda, conduzida pela nossa metodologia de inteligência territorial, fale com a equipe da Space Hunters. A gente adora ajudar redes a crescer no lugar certo.