Conheça o DataBeer: Onde surgem os bares e o que eles dizem sobre as cidades brasileiras.

A Space Hunters analisa onde surgem os bares e o que eles dizem sobre as cidades brasileiras.

Não importa em que cidade você mora. Na hora em que você resolve matar a saudade dos amigos em volta de uma mesa de bar, determinadas regiões já vêm à cabeça.

Se você mora em São Paulo, por exemplo, pode optar entre os botecos da Vila Madalena, as casas noturnas da Vila Olímpia, os restaurantes de Moema, ou quem sabe um meio termo entre tudo isso, em Pinheiros.

Já os curitibanos, ao entardecer de sexta-feira, os destinos mais prováveis são os cobiçados restaurantes do Batel ou os sempre charmosos barzinhos do Centro Histórico, em volta da Rua Trajano Reis. Ou quem sabe dar uma chance a um bar do Novo Mundo.

Embora cada bairro tenha suas particularidades, a Space Hunters* analisou as regiões mais badaladas de cinco metrópoles brasileiras – Belo Horizonte, Curitiba, Goiânia, Porto Alegre e São Paulo – para observar o que elas têm em comum. O que emerge desse levantamento é que uma zona boêmia não surge por acaso, mas de uma conjunção de fatores que envolve a quantidade de moradores, a circulação de pedestres, o poder aquisitivo e a integração com o restante da cidade.

– Conclusão disso é que os bares são um bom indicativo de para onde uma cidade está crescendo. Eles são causa e consequência do desenvolvimento urbano de determinada região – aponta o arquiteto e urbanista Francisco Maraschin Zancan, CEO da Space Hunters.

Para exemplificar como essa conjunção de fatores funciona, a Space Hunters criou o DataBeer: são cards para cada bairro com notas para cada um dos quatro elementos de sucesso. Conheça a seguir os fatores mais decisivos e como eles aparecem na formação das zonas boêmias das cinco metrópoles.

  • População

Embora a vizinhança com os bares nem sempre seja agradável, não há zona boêmia que sobreviva em espaços muito ermos em relação à quantidade de moradores. Nem todo bairro com muitos moradores se torna boêmio, mas todo bairro boêmio necessita de uma boa quantidade de residentes no seu entorno.

  • Densidade

Mais do que moradores, a boêmia depende que pessoas – moradores ou não – circulem por essas regiões, preferencialmente a pé, o que traz vivacidade e segurança. Não à toa, os bairros boêmios são sempre regiões “mornas” ou “quentes” quando se observa gráficos que mostram a quantidade de pessoas que passam por essas regiões no dia a dia.

  • Renda média

A regra do “follow the money” funciona por aqui também. Se uma região tem alta quantidade de circulação e de moradores, mas não estabeleceu uma zona boêmia, é provavelmente porque a o poder aquisitivo dos seus moradores ou dos bairros vizinhos não se tornou atraente para os negócios. Via de regra, as zonas boêmias não costumam ficar nas zonas extremamente ricas, que tendem a se isolar em condomínios, mas sempre em áreas acima da renda média da cidade como um todo. 

  • Urbanidade

O termo urbanidade resume a boa integração do bairro com o restante da cidade. Para uma zona boêmia ter sucesso, é preciso ser fácil chegar até ela de outras regiões e que haja uma tendência de a cidade se desenvolver em direção àquele local, reunindo ainda mais pessoas em um futuro próximo.

Belo Horizonte, a capital e a mais inusitada cidade dos botecos.

Belo Horizonte se destaca pela quantidade de bares por metro quadrado, além de distribuição inusitada na cidade. – (Foto: Belotur, divulgação)

A capital mineira é famosa pela fama de botequeira e ela não é injustificada: conforme um levantamento da prefeitura divulgado em 2017, Belo Horizonte tem 28 bares a cada quilômetro quadrado.

Pois a capital mineira é uma das cidades mais curiosas para observar como os fatores que compõem o DataBeer dos seus bairros se comunicam. Trata-se de uma cidade em que a renda se concentra ao sul, mas a região boêmia insiste em se concentrar perto do Centro.

Funcionários, Savassi, Lourdes, Santa Tereza, além do próprio Centro, são os polos boêmios mais convencionais: em que o bom poder aquisitivo se combina com outras facilidades, como a circulação a pé e a quantidade de moradores.

Porém, Belo Horizonte difere das demais cidades por ter ao menos um bairro boêmio com a renda 8% abaixo da média da cidade: o Lagoinha, tão associado a bares que, em Belo Horizonte, o copo americano, por lá, se chama copo lagoinha. Além da memória afetiva, o bairro sobrevive de projetos como o Viva Lagoinha, de repetidas promessas de revitalização do poder público e da ainda muito alta concentração de pedestres no entorno da região.

Para apontar para onde a cidade está crescendo, vale olhar com carinho para o norte da cidade. Em torno da Rua Alberto Cintra, se concentram os novos bares do bairro União. Movimento semelhante ocorre na Avenida Fleming, no bairro Ouro Preto, na região da Pampulha. São regiões com renda respectivamente 15% e 41% acima da média da cidade. Ainda é pouco – Funcionários, por exemplo tem renda 243% superior a da cidade – mas é um sinal de desenvolvimento para o futuro.

Confira o DataBeer de algumas regiões:

Funcionários
Lagoinha
Ouro Preto
Santa Tereza

Curitiba e as vantagens de tratar o Centro da cidade com carinho.

Capital paranaense colhe os frutos de ter mantido bem conservado seu Centro, que segue atraindo boêmios. (Foto: Luiz Costa, SMCS, divulgação)

Se fôssemos circular sobre o mapa de Curitiba onde ficam seus bairros com a maior concentração de pessoas e onde ficam os bairros mais ricos, teríamos dois grandes círculos com um ponto de intersecção. É nesse ponto – uma faixa que vai do norte do bairro Bigorrilho até o sul do Água Verde – que se reúne praticamente toda a boemia de Curitiba.

Centro, Batel, Bigorrilho, Mercês, Alto da XV e São Francisco se mantêm como os mais populares entre os botequeiros curitibanos por não serem nem tanto o céu, nem tanto a terra. Conseguem ser bairros de bom poder aquisitivo, mas não o suficiente para que seus moradores e frequentadores se escondam atrás de muros de condomínios. E estão em regiões quentes em circulação, mas sem se tornar caóticas.

Aqui, cabe uma lição para as demais cidades: o Centro de Curitiba, ao se manter bem conservado em comparação a cidades como São Paulo e Porto Alegre, se manteve aquecido em termos de densidade demográfica e de renda, conseguindo assim manter em sua órbita outros bairros boêmios pela facilidade de circulação e integração entre eles.

O bairro que surpreende como novidade na boemia na capital paranaense é Novo Mundo, na região da Avenida Brasília. Embora com renda média três vezes inferior a de um bairro como o Batel, a região vai se desenvolvendo e ganhando uma zona gastronômica própria justamente para distância da área central, o que torna mais cômodo ficar por ali mesmo. O bairro usufruiu, todavia, da grande concentração de pessoas ao norte, área mais quente de Curitiba.

Confira o DataBeer de algumas regiões:

Alto da XV
Batel
Santa Felicidade

Goiânia, onde a boemia segue a cartilha do desenvolvimento urbano.

Setor Oeste é um dos bairros de características semelhantes que compõem eixo boêmio na capital goiana (Foto: Instagram, @delasobar, reprodução)

Se fôssemos escolher uma das cinco cidades como exemplo clássico da lógica urbana por trás da boemia, possivelmente seria Goiânia. É na capital de Goiás que a cartilha que relaciona o surgimento bares à união de fatores do DataBeer se mostra mais evidente.

Os Setores Bueno, Oeste, Marista e Nova Suíça são exemplos clássicos de zonas boêmias que reúnem um a um os fatores de sucesso. Têm entre duas e quatro vezes mais habitantes por hectare do a média da cidade, são próximas entre si, o que facilita a integração e a circulação, e formam uma espécie de miolo no mapa da cidade de habitantes das classes A e B. Se a renda média do goianiense é de R$ 3.250, em nenhum desses setores ela fica abaixo de R$ 8.000.

Mas não basta uma quantidade alta de moradores de alta renda, do contrário regiões como a zona do aeroporto ou o setor Amazonas, por exemplo, também teriam uma quantidade significativa de bares. Porém, elas perdem pontos pela baixa concentração de pessoas no dia a dia. Poderiam ser boas regiões para escolas, por exemplo, mas não para botecos.

Confira o DataBeer de algumas regiões:

Setor Bueno

Porto Alegre, uma cidade com a boemia em constante mutação.

Região do Quarto Distrito compensa baixa renda no entorno com boa integração a demais regiões. – (Foto: Andreas Müller, PMPA, divulgação)

Se em Goiânia o segredo do sucesso é o equilíbrio entre os fatores que compõem o DataBeer, Porto Alegre é onde eles mais aparecem como pesos e contrapesos.

Pega-se o Quarto Distrito, por exemplo, região que começa no bairro Floresta rumo ao São Geraldo. Tanto em renda quanto em quantidade de moradores a região tem índices ruins. Porém, se destaca pela urbanidade: está melhor integrada às demais regiões da cidade do que a Cidade Baixa, por exemplo, região tradicional da boemia local, mas isolada, segurando as pontas graças à circulação de universitários.

Outra característica de Porto Alegre é a boemia migrando no ritmo do desenvolvimento urbano. Nesse ponto, dois bairros surgem como tendência. Auxiliadora e Petrópolis – este, na região da Avenida Neusa Brizola – aparecem como polo de novos bares e restaurantes como em décadas passadas foram as regiões da Duque de Caxias, Independência e Moinhos de Vento.

Mesmo que ainda que não atraiam muitos moradores de outras regiões, Auxiliadora e Petrópolis já apresentam renda e densidade demográfica suficiente para sustentar uma cena local com “bares de bairro”. Movimento semelhante ao que ocorre na zona sul, nos bairros Tristeza e Ipanema, porém com melhor integração ao restante da cidade. Guardadas proporções, é o que acontece nos bairros paulistanos Itaim Bibi e Moema.

O mesmo pode-se esperar em pouco tempo no eixo Cristo Redentor-Sarandi, que também preenche os principais fatores de sucesso do DataBeer e ainda carece de vida noturna.

Confira o DataBeer de algumas regiões:

Quarto Distrito
Cidade Baixa
Auxiliadora
Petrópolis

São Paulo, boêmia à imagem da cidade.

Vila Madalena é um dos bairros boêmios paulistanos cuja renda é bem acima da média da cidade. – (Foto: Instagram, @saocristovaobar, reprodução)

Pergunte como é São Paulo para um brasileiro qualquer e o imaginário é quase sempre o de uma cidade muito rica e muito cheia de gente. Talvez o clichê não se aplique para toda a capital paulista, mas certamente cabe para definir as suas zonas boêmias.

Vila Madalena, Pinheiros, Itaim Bibi, Cerqueira César (Augusta), Moema… Todas essas regiões tem em comum uma renda per capita acima dos cinco dígitos, enquanto a média da cidade gira em torno de R$ 3.800.

Se dependesse apenas disso, regiões igualmente ricas como Santo Amaro, Perdizes ou Vila Leopoldina também poderiam ser destaques. O que pesa para os bairros que fazem mais sucesso na noite paulistana é a facilidade para a concentração de pessoas, além de estarem acessíveis a uma grande quantidade de moradores em um raio de até dois quilômetros.

Cabe ainda um puxão de orelhas na capital paulista. Diferentemente de cidades como Porto Alegre, em que o Centro Histórico ficou deslocado das regiões mais quentes da cidade e carece de moradores, São Paulo assistiu à degradação de um Centro extremamente bem localizado e poderia facilmente voltar a ser uma zona boêmia se voltar a atrair moradores de classe-média e se tornar mais amigável aos pedestres durante a noite.

Confira o DataBeer de algumas regiões:

Vila Madalena
Itaim Bibi
Moema
Pinheiros

Pesquisa: Francisco Maraschin Zancan
Reportagem: Caue Fonseca


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