O Ponto Comercial e a Relação com Lojistas na Pandemia

A loja física irá morrer? Os lojistas de shopping conseguirão sobreviver? O consumo em ambiente de rua ou de centro comercial irá permanecer? Essas e outras incertezas surgiram ou aumentaram em decorrência da pandemia do novo coronavírus que se instaurou nos últimos meses. A Space Hunters, assessoria especializada em análise de localização de negócios através de cálculos de deslocamento humano, tendo em vista sua experiência de já ter auxiliado mais de 400 clientes em 10 países, aponta diversas percepções relacionadas ao cenário atual. Os apontamentos da Space Hunters se baseiam na interpretação, análise e percepções de seus especialistas, os quais são desde pesquisadores de mercado até arquitetos urbanistas.

Norteada pela lógica de sintaxe espacial e morfologia urbana, é perceptível que, não só agora, mas desde sempre, o ser humano buscou conveniência em sua maneira de utilizar as cidades e os espaços disponíveis. O foco sempre foi o caminho mais rápido e prático, o deslocamento mais efetivo para alcançar seu objetivo. Sendo assim, uma importante percepção é que, independente de pandemia ocorrer, a tendência natural para o consumo das pessoas já estava, pelo advento da internet, cada vez mais se intensificando em conveniência. Os estudos realizados pela Space Hunters para seus clientes frente a pandemia mostraram somente uma intensificação ainda maior, mas agora com mais empresários buscando atender essa necessidade de seus públicos por conveniência. Isso acarreta alguns fatores importantes sobre o perfil das lojas que os muitos empresários já estão buscando.

Um dos fatores destacados nos últimos meses é uma tendência expressiva ao modelo “take-away”/”take-out” no qual o ponto física serve como somente um local de entrega e retirada de produtos. No caso de restaurantes, a pessoa nem consome no local, só retira o seu pedido e o leva para ser consumido em outro local. Para varejo como vestuário ou farmácia o que pode ocorrer também é somente um ponto para troca e retirada de produtos da venda do e-commerce. Em outros casos, já são utilizados inclusive os “lockers”, alternativa baseada na ideia dos antigos guarda-volumes que diferente de deles que eram usados durante o período que a pessoa permanece no estabelecimento, agora são utilizados com sistemas inteligentes voltado para compras online e retirada expressa. Para os “lockers”, assim que um produto é comprado no site de uma loja, dentro de algumas horas a pessoa pode retirá-lo em uma estação de trem ou metrô, em um posto de gasolina, ou em outros lugares próximos de onde está, sem frete e sem atrasos, ou até mesmo em lockers dentro de pontos físicos da marca. Desse modo, cada vez mais as lojas físicas se transformarão em pontos de distribuição de produtos, focados em comodidade a nível de bairro e região e também serão ponto de contato da marca com o cliente, proporcionando ainda certa experiência, mas que de nada vai adiantar se não for conveniente.

O delivery que cresce cada vez mais impulsionado pela pandemia, segue o mesmo modelo de importância. Diversos clientes recentes da Space Hunters solicitaram enfoque em pontos que oferecessem a possibilidade de atendimento na loja mas também de boa logística para tele-entrega. Na área da alimentação e restaurantes, por exemplo, vemos as “dark kitchens”, espécies de restaurantes fantasmas não têm uma loja, de modo que os clientes não podem comprar seus alimentos pessoalmente. As “dark kitchens” entregam comida diretamente aos seus clientes, muitas vezes através do uso de serviços de entrega terceirizados. Na mesma lógica vemos para outros varejos, as “dark stores”, locais exclusivos para armazenamento, separação e envio de produtos online, mas diferentemente dos centros de distribuição tradicionais, que são gigantescos e longe da cidade, as dark stores são menores, localizadas em centros urbanos e parecidas com lojas comuns, mas fechadas para o público. Nesses casos nem ocorre experiência alguma de compra em loja assim como não funciona como ponto de contato e expressão da marca com seus clientes.

Na presente análise da Space Hunters, destacamos esses exemplos anteriores pois vem sendo frequente esse debate frente aos empresários atendidos e leva nossos especialistas a crer que isso impacta a maneira como o lojista enxerga as características de um ponto físico ideal para o durante e pós pandemia. Em nossas análises, é perceptível que, quando existe uma experiência propiciada de valor relevante para um consumidor (como ir a um jogo de futebol ou consumir não só comida mas o “ambiente” do restaurante, além de festas, eventos ou cinema), as pessoas ainda se deslocam um pouco mais (contudo quanto mais esse lugar estiver alcançável de forma fácil e segura, mas assertivo será). No entanto, com a pandemia, as aglomerações foram cortadas e o momento é muito difícil para quem tem ambientes voltados para esse enfoque. Esse tipo de foco requer ambientes com mais espaço interno, maiores investimentos em reformas, decoração e personalização, além de, é claro, maior aluguel, como acontece nos shoppings (enormes pontos para experiência que ainda tem relevância no Brasil principalmente pela insegurança da ruas, pois fora do Brasil o foco é cada vez mais na rua e no ponto para negócios para atender o bairro).

Mesmo assim, tanto esse tipo de lojista, quanto o que busca uma operação mais enxuta, sofre frente a pandemia e em muitos casos, como de 60% dos clientes da Space Hunters, perderam grande parte do faturamento ou todo o faturamento da noite para o dia. A solução repetidamente tem sido renegociar o aluguel ou então mudar um pouco sua atuação ocasionando necessidades novas para o uso de ponto físico. Para solucionar isso, os lojistas entram em contato com imobiliárias, e essas com os proprietários dos imóveis. Em outros casos, o lojista sai do shopping ou renegocia.

Para a análise de imóveis e aluguéis, a Space Hunters conta com parceiros como a Ponto Pronto, consultoria e gestão imobiliária também de Porto Alegre. Segundo o especialista da Ponto Pronto, Renan Gomes Wagner, 99% dos contratos gerenciados no momento por sua empresa pediram renegociação do aluguel. Frente à isso, Renan tem destacado a possibilidade das imobiliárias trabalharem com acertos de negociações mensais pois o contexto é de muitas incertezas, tanto para o proprietário do imóvel, quanto para a imobiliária, assim como para o lojista e o ideal era que todos os envolvidos tivessem essa noção. As imobiliárias mais do que nunca podem ter esse argumento frente aos players e deve passar com consciência essa questão. O cuidado também deve existir pois observa-se a existência da falta de confiança causada por inquilinos que não tiveram seu negócio afetado tão fortemente pela crise e não teriam por que renegociar, mas se aproveitam do caos e necessidades de muitos para conseguir aluguéis mais baratos. É muito importante que gestores e consultores de mercado tenham a noção do momento atual e o bom senso na hora de pedir uma renegociação.

Analisando as alternativas, Renan cita que vê a possibilidade de ser propiciado uma média de 20% a 50%. Esse desconto pode ser discutido mês a mês. Em alguns casos, é possível também o abono de um primeiro mês e desconto no segundo. O importante é pensar na lógica de que quanto mais prejudicado foi o comercio mais imobiliárias, se conseguirem, poderiam proporcionar flexibilidade. Lojas de roupas, as quais o cliente até mesmo por não poder experimentar na loja ou evitar e também pelo fato de ser mais conveniente o e-commerce, poderia receber mais flexibilização. Farmácias poderiam receber descontos menores, mas mesmo assim também sofreram (importação e exportação por exemplo estava bem complicada pelo dólar e dificuldades causadas por restrições frente aos cuidados dos vírus), principalmente as menores, pois as grandes marcas tinham mais poder de estoque. E cabe ao lojista perceber que para o “outro lado” também não está fácil. A lei favorece o inquilino por exemplo, não permitindo o despejo por dívida, a não ser quando o proprietário quer usar pra renda familiar o imóvel. Nesse caso, ocorrer o despejo para manter a renda familiar do proprietário intacta.

Em âmbitos gerais, mais do que nunca, todos, seja locatário, inquilino ou consultorias de apoio à tomada de decisão como a Space Hunters, necessitam observar a peculiaridade de cada um, classificando mercados com mais poder de sobrevivência e outros com menos. Para essa classificação é sempre necessário lembrar da busca por conveniência que o ser humano busca, pois negócios que melhor conseguem atender, não precisam de custos tão robustos e também consegue ter mais estabilidade nesse momento de pandemia.

Arthur Dias Duarte

Arthur Dias Duarte

Sócio e Diretor de Marketing e Vendas da Space Hunters. Graduado em Administração com ênfase em Marketing e Negócios Digitais pela ESPM-Sul, possui experiência em consultoria, planejamento, vendas, gestão de pessoas, startups e ecossistemas de inovação. Ele também já foi Diretor de Projetos da AJEPOA (Associação de Jovens Empresários de Porto Alegre), estimulando e auxiliando jovens empreendedores e empresas do ramo de tecnologia, programação e entretenimento. Além de tudo isso, presta consultoria em projetos enxutos para design de marcas e oportunidades de vendas.

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